Observatório: Breu – Um jogo para ouvir

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A maioria das pessoas está bem acostumada a perceber o mundo através da visão. É o sentido que nos permite identificar cores, formas, profundidade, brilho, distância e movimento. Mas, nem todo mundo percebe o mundo dessa forma. E é evidente que a ausência de visão, além de impactar as tarefas diárias da pessoa com deficiência visual, muda também a forma como ela interage com as mídias e entretenimento. Jogos são um mídia extremamente visual, então como alguém sem visão poderia apreciá-los? O áudio-jogo brasileiro Breu me fez refletir sobre estes e muitos outros questionamentos, e quero trazer alguns deles aqui.

O que é Breu?
Breu é um audiogame, ou seja, um jogo baseado totalmente na experiência auditiva, sem nenhum elemento visual. A obra, que tem uma narrativa de suspense/investigação, busca trazer uma experiência imersiva e original tanto para jogadores videntes (ou seja, que não tem a visão comprometida) quanto pessoas com deficiência visual. Foi desenvolvida pela Team Zeroth, equipe baiana de desenvolvimento de jogos, em parceria com Tharcisio Vaz, Bacharel e Mestre em Composição Musical para Games na UFBA (Universidade Federal da Bahia). O projeto não tem fins lucrativos e teve financiamento da Secretária de Cultura do Estado da Bahia. Saiba mais sobre o projeto no site oficial.

É possível ter noção de espaço sem visão?
Jogar Breu é uma experiência única, pois ao longo do jogo é impossível não acabar criando um “mapa” mental do mundo a sua volta. Enquanto visualmente nos orientamos por formas e luzes, de forma auditiva a orientação é feita através da intensidade do som, e esse acaba sendo um ponto chave no game. É simples concluir que quanto mais alto o barulho, mais próximo se está da origem dele. Sendo assim, pode-se estimar com certa facilidade a distância entre você e outro objeto. Outro fator é a direção de origem do som. Breu faz um trabalho magnífico simulando um ambiente sonoro tridimensional. A movimentação do personagem é controlada pelas telas W, A, S e D, e a medida que você se move, é possível sentir que a direção de origem dos sons no ambiente também mudam. Fechando os olhos e colocando fones de ouvido, essa sensação fica ainda mais intensa, visto que assim você bloqueia quaisquer outras distrações que poderiam tirar seu foco do jogo.

A maior parte dos jogos foco no uso da visão, mas e a audição?
Breu não é o primeiro audiogame, mas traz um questionamento muito importante para a indústria de games atual: será que estamos dependendo demais do visual para criar uma boa experiência de gameplay? Jogos como Destiny e The Last of Us foram muito elogiados por suas trilhas sonoras envolventes e cinematográficas, mas o uso do áudio pode ir muito além da música. Por exemplo, alguns jogos que transformam a melodia em elemento principal e a fundem com outros elementos de gameplay, como Crypt of the Necrodancer (um roguelike) e 140 (plataforma). Outros ainda mantém o som em caráter secundário, mas o utilizam de forma a alertar o jogador de eventos que ocorrem ao seu redor. Em jogos stealth como Metal Gear Solid e Splinter Cell, um sinal sonoro avisa quando o jogador foi visto por um inimigo.

Como podemos tornar os games mais acessíveis a todos?
Poucos jogos são feitos tendo em mente aqueles que tem algum tipo de deficiência. Porém, existem algumas iniciativas visando mudar essa situação. Uma delas é a dos audiojogos, e caso você esteja interessado em experimentar, o site audiogames tem uma considerável biblioteca. Contudo, não são apenas os pequenos desenvolvedores indie que estão se preocupando em tornar os jogos mais inclusivos. Grandes produções como Call of Duty e SimCity incluíram nos últimos anos um “modo daltonismo”, que muda o contraste da tela e facilita a visão para quem sofre dessa condição. Existem também inovações de hardware para facilitar a acessibilidade, como o Xbox Adaptive Controller, um controle de Xbox altamente customizável desenvolvido pela Microsoft (vídeo abaixo). O equipamento permite realizar a conexão de diferentes botões, alavancas, e outros periféricos, conforme as necessidade motoras de cada jogador. É possível mapear estes acessórios para que cada um corresponda a um botão do controle do Xbox One.

 

Breu

  • Desenvolvedor: Team Zeroth
  • Data de lançamento: maio/2018
  • Plataformas: Windows, MacOS

 

Fontes:

2 comentários em “Observatório: Breu – Um jogo para ouvir

  1. Vou tentar jogar hoje a noite o game.
    Parece bom!
    O.B.S Bom tópico. Tem muito potencial na utilização da audição tanto para inclusão como para aumento da qualidade da experiência.

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