Observatório: O que é um jogo bem feito?

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Quem acompanha os grandes lançamentos de jogos nos últimos anos sabe que não é incomum ver games sendo lançados com grandes bugs que causam dores de cabeça para os jogadores, ou algumas situações bem bizarras. Battlefield 4 e Assassin’s Creed Unity são exemplos famosos de bugs gráficos que viraram piada na Internet. Este ano, os desenvolvedores de Shadow of The Tomb Raider foram ainda mais longe, lançando o jogo com o final “errado”, sendo que este teve de receber um patch logo no primeiro dia para “corrigir” o enredo.

Mas, o que causa todos estes problemas? Bom, existem vários fatores envolvidos, mas a “pressa” dos desenvolvedores é geralmente um dos problemas mais frequentemente apontados. Produzir um game de alta qualidade é algo caro e que leva muito tempo para se realizar. Sendo assim, é natural que as companhias sempre estejam tentando criar o melhor produto possível, visando minimizar o esforço e maximizar os lucros. E isso traz algumas reflexões interessantes: se games são arte, e a indústria quer tratá-los como tal, por que tanto descaso? Não seria melhor se os desenvolvedores demorassem 6 meses a mais, mas entregassem um jogo mais completo e com menos problemas? Estaria a pressão por lucros no mundo dos negócio matando o espírito artístico?

Recentemente estive no Canadá, onde tive a oportunidade de visitar exposições de 2 artistas: Bill Reid, um pintor/escultor indígena canadense, e Takashi Murakami, um artista contemporâneo japonês. Apesar de nenhuma das exposições ser relacionada a games, encontrei nelas algumas informações que podem nos ajudar a responder as perguntas do parágrafo anterior. Para que o leitor possa entender melhor do que estou falando, compartilho abaixo 2 trechos de autoria destes artistas, falando um pouco de suas obras:

“Uma qualidade básica une todas as obras da humanidade e fala conosco em vozes humanas, reconhecíveis através das barreiras do tempo, cultura e espaço: a simples qualidade de ser bem feito”

Bill Reid – Exposição do Museu de Antropologia da UBC (University of British Columbia)

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“Estou escrevendo estas palavras para me desculpar, pois não consegui terminar minhas pinturas. No fim das contas, sem um prazo sou incapaz de criar a situação de urgência, de vida ou morte, da qual preciso para ser produtivo […]. É [nessas situações] que ideias brilhantes costumam aparecer para mim, seja através da secreção de dopamina ou endorfina, seja pelas sinapses que repentinamente se conectam. Essas ideias geralmente são surpreendentes, bizarras e fora do normal, coisas nas quais eu nunca teria pensado quando comecei a pintar. Elas só vem até mim, contudo, no último minuto.”

Takashi Murakami – Exposição “The Octopus Eats Its Own Leg”, Vancouver Art Gallery

Esses trechos, curiosamente, se contrastam. Enquanto Reid fala que a arte deve ser bem feita para ser durável, Murakami diz que a arte só vem através da “pressa” em produzir conteúdo, o que embora lhe traga inspiração, muitas vezes o leva a apresentar obras inacabadas (e que portanto deixam de ser “bem feitas”). Esse conflito entre a urgência pela produção artística e a criação cuidadosa de uma obra é exatamente o que se vê na indústria de games atualmente. Milhares de desenvolvedores despejam títulos novos aos baldes no mercado todos os anos, tentando atrair a atenção dos jogadores e ganhar seu quinhão, muitas vezes se esquecendo de “fazer bem feito”.

Mas, isso é assim tão ruim? Bom, não podemos generalizar. Jogos como Fallout e The Last of Us estão aí para provar que, apesar dos bugs, obras de arte do mundo digital existem e são capazes de cativar os corações e mentes dos jogadores. Problemas acontecem, muitas vezes por má fé dos desenvolvedores, como no caso de No Man’s Sky, que foi lançado sem boa parte das funcionalidades que prometia apresentar. Mas na maioria dos casos os bugs são resultados de enganos ou falta de diligência. Franquias e spin-offs vem e vão, mas para quem busca criar obras que vão maravilhar o público e vencer o teste do tempo, talvez seja uma boa ideia se espelhar em Bill Reid. Ao fazer arte, não escolha o caminho mais rápido, mais simples ou mais chamativo: busque o bem feito.

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