Observatório: Splinter Cell: Blacklist e a moral nos games

Recentemente joguei Splinter Cell: Blacklist, título da Ubisoft lançado em 2013, e gostei muito do jogo pela seu perfeita equilíbrio entre ação/stealth, bem como os personagens marcantes e um enredo reflexivo, que questiona de forma sutil vários pontos da política militar americana. Uma das questões que mais chamou minha atenção foi como a narrativa explorou a ideia das “4 liberdades“, que são um conceito importante na história dos EUA, embora não sejam tão familiares para nós.

Esse conceito veio a tona pela primeira vez em 1941, quando o presidente Franklin D. Roosevelt, em seu Discurso sobre o Estado da União, propôs 4 liberdades que deveriam ser direitos fundamentais de todo ser humano: liberdade de expressão, religião, necessidade (não passar fome ou qualquer outra necessidade) e medo (estar seguro e livre do medo). Blacklist, porém, incluí a chamada “Quinta Liberdade“: um agente Splinter Cell pode infringir qualquer lei existente, em nome da proteção das outras 4 liberdades. Isso significa que torturar ou matar quaisquer inimigos, militares ou civis, torna-se completamente aceitável se for “pelo bem da América”. E apesar de ser meio sombrio, esse conceito me fez questionar: como os games tratam as questões morais?

Todo mundo já ouviu a palavra “moral”, e embora ela apareça por aí bem frequentemente, nem sempre damos a devida atenção a seu significado. O site Brasil Escola define moral como o “conjunto de valores, de normas e de noções do que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada sociedade, de uma cultura”. Ou seja, é a moral que, de certa forma, faz as pessoas em uma determinada sociedade “andarem na linha”, seguindo um determinado conjunto de leis. E assim como na vida real, os mundos virtuais também tem moral, especialmente nos games que apresentam mundos abertos e mais complexos. Em muitos jogos, fazer algo que foge às regras do mundo tem consequências. Em games mais simples, porém, nem sempre isso é uma grande preocupação. Visando explicar melhor essa questão e fornecer exemplos, vou citar 5 formas de lidar com a moralidade nos games:

1. Limitação

Muitos jogos simplesmente impedem o jogador de fazer algo que vá contra a moral, ou seja, um ato imoral. Por exemplo, Call of Duty te impede de atirar em soldados aliados na campanha, afinal de contas, por que você faria isso? O gatilho simplesmente trava, e torna-se impossível atirar. Talvez esse não seja o modo mais natural de lidar com a moral em um jogo, mas certamente é uma maneira que funciona e deixa bem clara qual é a moral para o jogador: “atirar nos seus amigos não é legal, portanto, não vamos deixar que você faça isso”.

2. Punição

Talvez a forma mais comum de lidar com a moral nos jogos. Ao cometer um ato imoral, o jogador sofre algum tipo de punição dentro do jogo, como a diminuição do seu placar ou o aumento do nível de dificuldade. Um exemplo clássico é GTA: se o seu personagem cometer um crime no jogo como roubar um carro ou matar uma pessoa, a polícia irá persegui-lo, o que vai tirar o seu sossego por um tempo. Em vários jogos de ação, a morte de civis ou aliados durante uma missão é punida com a diminuição do número de pontos ganhos da missão, ou até abortando a mesma. Em alguns casos, punições realacionadas a games podem também afetar o mundo real. Por exemplo, um jogador que está apresentando comportamento tóxico em um jogo online como League of Legends ou DotA pode ser banido do jogo de forma temporária ou definitivamente.

3. Karma

Um dos sistemas que considero mais interessantes para lidar com a ideia de moral, mas poucos jogos o implementam. Por exemplo, em Fallout: New Vegas o karma é contado em pontos: boas ações (como salvar um vilarejo cheio de inocentes) aumentam sua barra de karma, fazendo do que seu personagem seja considerada uma pessoa boa. Cometa atrocidades, como matar inocentes só para pegar aquele item ou arma bacana, e seu karma é subtraído. É claro que bem e mal acabam sendo relativos: fazer o bem para uma facção no jogo fará você ser odiado por outra, mas no geral, o jogo possui uma forma de avaliar sua moralidade e mudar o final de acordo com o caráter do seu personagem.

4. Amoralidade

As vezes um mundo é pequeno ou simples demais para ter conceitos morais. Imagine um jogo simples do Atari, como Pong ou Space Invaders. O jogo tem objetivos simples e extremamente limitados, e não existe um conceito de sociedade ou leis que possam ser quebradas. O jogo é o resumo de suas mecânicas e nada mais. Jogos simples não possuem moral, ou seja, são amorais.

5. Imoralidade

Essa categoria é a mais polêmica: jogos que recompensam sua imoralidade. Mortal Kombat é conhecido por valorizar os golpes mais cruéis dentro do game (os famosos fatalities e x-rays). Existem, porém, exemplos bem menos extremos, e até mesmo humorísticos. Em The Sims, seu personagem pode seguir várias carreiras, entre elas a do crime. Contudo, esse fato é ironicamente tratado como algo completamente normal. Do ponto de vista do jogo, o trabalho de um criminoso não é diferente de um empresário, policial ou médico. Ainda assim, por imitar o mundo real, no mundo dos Sims os criminosos também são imorais. Paradoxo? Na verdade, acho que está mais para uma boa dose de humor meio nonsense que é clássico dos jogos da Maxis.

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