Observatório: Free Murdoc – Um jogo em forma de chat

GorillazPhase5

Quem acompanhou a cena rock/pop do início dos anos 2000 ou se ligou nos últimos lançamentos do mundo da música indie provavelmente já ouviu falar de Gorillaz, a banda “virtual” criada em 1998 pelo músico Damon Albarn e pelo artista Jamie Hewlett. Apesar da música ser composta e tocada por pessoas “reais”, quem estrela os clipes são os personagens de animação 2-D , Murdoc, Noodle e Russel (na imagem acima). Mas você deve estar se perguntando: o que diabos isso tem a ver com jogos? Bastante coisa.

Em junho deste ano, juntamente ao lançamento do novo álbum do Gorillaz, chamado “The Now Now”, a banda lançou uma campanha publicitária chamada #FreeMurdoc, na qual pedia aos fãs que ajudassem um dos membros do grupo, Murdoc, que supostamente teria sido preso injustamente. A interação entre ao público e esse personagem ficcional ocorreu através de um chatbot, que foi disponibilizado através dos apps Facebook Messenger, Skype e Kik. Bastava clicar em um link para adicionar “Gorillaz” a sua lista de contatos e começar a conversar.

Porém, essa interação não era um simples diálogo e sim um game no qual o jogador recebe instruções através do chat e então realiza tarefas, também pelo aplicativo de mensagens, batendo um papo com diferentes personagens e buscando por informações. A história começa quando o jogador entra em contato com Murdoc, através do link do chat, que na ficção se conecta à rede do presídio de Wormwood Scrubs, onde o baixista da banda está aprisionado. Após um breve conversa, ele conta que fez inimizade com um criminoso chamado El Mierda, que acabou armando um complô para colocá-lo na cadeia. Agora, ele precisava achar um jeito de sair e descobrir mais sobre o sujeito, que é um grande chefe do crime organizado.

A fim de coletar mais informações sobre El Mierda, o jogador é enviado em diversas missões, que em geralmente tem algum caráter cômico. Desde “hackear” o chat da prisão e passar-se pela namorada de outro prisioneiro, até ler e repetir instruções em um mapa para ajudar Murdoc a escapar da prisão através do sistema de esgoto, os objetivos são bem envolventes e te fazem sentir como se você estivesse conversando com pessoas que têm urgências e dúvidas reais. O “roteiro” dos chatbots foi muito bem escrito (apesar de falhar e repetir-se eventualmente, como toda IA), e a todo momento o diálogo com os personagens te passa uma sensação de urgência. E foi visando transmitir esses sentimentos que o game utilizou alguns artifícios bem interessantes.

Primeiro: o uso do tempo real. Com exceção do diálogo inicial, as demais partes do jogo não podiam ser acessadas pelo jogador no momento que ele quisesse. Era necessário esperar que Murdoc ou outro personagem entrasse em contato com você, o que ocorria somente em determinados dias e horários, os quais era previamente avisados no site oficial e mídias sociais da banda. Isso causava uma sensação de realismo, pois as notificações do Gorillaz apareciam em meio as demais no seu celular, como se fosse um velho amigo parecendo para dizer “olá” e pedir um favor enquanto você estava escovando os dentes ou no meio de uma aula importante. Fora dos dias e horários nos quais o jogo “chamava” você, o chatbot era totalmente inacessível, e não respondia à mensagens.

Outro ponto interessante foi a linearidade do enredo. O objetivo de uma missão era sempre descrito na conversa anterior, então você sempre sabia exatamente o que fazer e por quê. Por exemplo, um mapa descoberto em uma missão seria posteriormente utilizado por Noodle para encontrar o esconderijo de El Mierda nos Andes. Em muitos jogos a linearidade seria motivo de críticas, mas em #FreeMurdoc o objetivo não foi criar um aventura-texto com múltiplos finais e ramificações possíveis, mas uma experiência pessoal entre a banda e os fãs, com altas doses de suspense e bom humor.

No fim das contas, o jogador descobre que na verdade Murdoc foi preso por uma causa justa: uma multa de trânsito (ele estacionou em local proibido). Na verdade, ele havia inventado toda a história da acusação injusta para chamar a atenção de seus companheiros de banda, muitos dos quais haviam virado as costas para ele nos últimos tempos. E apesar de eu ter me sentido meio engando pelo desfecho tragicômico da história, tenho que dizer que esta foi uma aventura com a cara do Gorillaz, e um exemplo de que chatbots ainda estão sendo pouquíssimo usados no contexto de games. Quem sabe não vemos mais experiências inovadoras como esta no futuro?

Fontes:

 

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