Observatório: Twinsen’s Odyssey – Uma aventura incomum

Há uns meses atrás, vi uma amiga falando no Twitter sobre um jogo que lhe dava saudades: Twinsen’s Odyssey. Eu nunca tinha ouvido falar, mas fiquei maravilhado depois de ver alguns screenshots e resolvi experimentar. Logo eu que sempre falo tanto sobre o quanto a história e a jogabilidade de um game são importantes, fui atraído pelo que era mais superficial: o visual. Contudo, não demorei a ver que a história e os detalhes desse jogo também são sensacionais, e apesar de eu estar muito longe de chegar ao final, gostaria de compartilhar minhas impressões deste game que acabou sendo esquecido com o tempo, mas que é um verdadeiro tesouro e poderia servir de inspiração para muitos game designers/developers hoje em dia.

Afinal, que jogo é esse?

Little Big Adventure 2 é um jogo desenvolvido pela Adeline Software, uma empresa francesa, em 1997. Ele acabou sendo relançado na América do Norte com o nome Twinsen’s Odyssey pela Activision (é por esse nome que vamos nos referir ao jogo nesse post, ou pela sigla “T.O”). Apesar da sopa de nomenclaturas, o jogo obteve relativo sucesso na época, vendendo 300 mil cópias internacionalmente. Depois das boas vendas do game, a Adeline acabou sendo vendida para a Sega. Contudo, não obteve sucesso com seus projetos depois disso, e acabou por declarar falência em 2004. E esse é talvez um dos motivos pelos quais nunca mais se ouviu falar do Twinsen’s Odyssey por aí.

Cara de outros tempos

O primeiro choque que o jogador recebe ao jogar Twinsen’s em pleno 2018 é a qualidade gráfica. Os modelos 3D são poligonais e pouco detalhados, as texturas são borradas, e a câmera não segue o personagem, o que te obriga a ficar trocando entre diferente ângulos de câmera, um mais estranho que o outro (curiosamente, Tomb Raider é mais ou menos da mesma época e já tinha uma chase camera). Ainda assim, o game consegue ser surpreendentemente belo, mostrando objetos e personagens pintados em cores vivas e interiores isométricos minuciosamente detalhados em todo canto.

A trilha sonora é bem melódica e suave, mas ao mesmo tempo cria uma atmosfera de aventura e te motiva a explorar tudo que existe no ambiente ao seu redor. O problema é que a musica principal do jogo toca DEMAIS, e apesar de ela ser agradável acabou enjoando depois de um tempo. Os efeitos sonoros são bem cartunescos, e de certa forma até engraçados, o que fez com que eu me sentisse dentro de um desenho animado em cada passo da aventura.

Você é o que você faz

Twinsen’s Odyssey é um jogo único em termos de jogabilidade, pois ele possui um sistema bem interessante e incomum para dividir as ações que o personagem Twinsen pode realizar. Em vez de criar um botão para cada coisa, como muitos jogos da atualidade fazem, T.O torna apenas algumas ações possíveis dependendo do “comportamento” selecionado. Existem 4 comportamentos possíveis: Normal, Esportivo, Agressivo e Furtivo. O jogador pode mudar o comportamento do personagem a qualquer momento, selecionando a opção desejada em um menu.

No modo normal, Twinsen caminha de forma lenta e interage com objetos, o que é a forma mais adequada de agir quando se está explorando de forma cuidadosa um ambiente fechado. Já no modo esportivo, o personagem torna-se capaz de correr e pular sobre obstáculos (ótimo para se usar em “campo aberto”), e na opção agressiva ele pode desferir socos, chutes e ferir outros personagens. Por fim, o modo furtivo serve para aproximar-se de alguém sem ser percebido. Twinsen tem seus próprios maneirismos e efeitos sonoros em cada comportamento, o que dá um toque de bom humor e personalidade ao simpático mago.

Papo de maluco

Logo no início do game, o jogador é brevemente introduzido a história do primeiro Little Big Adventure, onde o mago Twinsen derrota o vilão Dr. FunFrock. No segundo jogo, Twinsen está aproveitando um momento de calmaria após essa batalha, mas como tudo que é bom dura pouco, ele acaba sendo obrigado a sair em uma nova aventura quando o dragão de estimação dele, um Dino-Fly, é ferido por um raio durante uma tempestade. No controle do mago e de suas habilidades, sua primeira missão no jogo é buscar remédio para o animal ferido.

Nessa jornada para encontrar uma cura para seu bichinho, você tem a oportunidade de explorar o cenário e falar com dezenas de personagens, quase todos animais, o que acaba sendo a melhor parte do jogo. O trabalho de roteiro e dublagem de T.O é simplesmente sensacional. Cada tipo de personagem tem seu próprio estilo e modos (elefantes, por exemplo, tem um voz mais grossa e andam pelo cenário vagarosamente, diferente de coelhos e cangurus, por exemplo). Apesar de muitos diálogos serem um completo nonsense, todos estão carregados de um humor sutil e incomum, e chega até ser difícil de explicar como isso funciona. Você pode entender um pouco esse “feeling” do jogo assistindo o vídeo acima, do canal Overloadr.

Minhas considerações até aqui

Eu sei que é meio clichê dizer isso, mas aí vai: não se fazem mais jogos como Twinsen’s Odyssey. O game tem um humor incomum, mecânicas de jogo que ainda hoje soam inovadoras, um visual agradável e uma trama ao mesmo tempo bizarra misteriosa, que se desenrola aos poucos e que em muitos momentos te deixa coçando a cabeça em dúvida, bem ao estilo das aventuras point-and-click do início dos anos 2000. O jogo é longo e os puzzles nem sempre vem com soluções óbvias, mas espero conseguir terminar o jogo um dia desses e talvez escrever um artigo mais completo. Pra quem quer mergulhar em uma história bem humorada e ter uma experiência quase esotérica em termos de gameplay, deixo minha recomendação.

 

Links e referências

  • Encontrei pouquíssima informação sobre a Adeline Software, tudo que é citado aqui veio do artigo da desenvolvedora na Wikipedia
  • Imagens neste post são dos site MyAbandonware e Steam