“Tá tudo bem” – A fama e a lama no mundo dos indie games

ATENÇÃO: este texto contém SPOILERS dos documentários “Indie Game: The Movie” e “We Are Alright”. Prossiga a leitura por sua própria conta e risco 🙂

Recentemente assisti o documentário We Are Alright, que conta a história de Bartek e Rafal, desenvolvedores poloneses que largam o conforto de um emprego fixo em uma grande empresa para apostar em seu próprio projeto, um indie game chamado Lichtspeer. A primeira coisa que chamou minha atenção foi a semelhança da premissa desse documentário com outro, bem mais conhecido: “Indie Game: The Movie”. Porém, os 2 filmes tem pouco em comum, pois abordam o mesmo assunto com pontos de vista completamente opostos. Apesar de não ter me empolgado ou me emocionado tanto com a narrativa de We Are Alright, esse contraste entre a história contada por ele e a visão que muita gente tem do “sonho indie” foi algo que me cativou, e é sobre isso que pretendo discorrer neste texto.

Comecemos por Indie Game: The Movie. O documentário acompanha a história de 5 desenvolvedores e seus jogos: Edmund McMillen e Tommy Refenes (Super Meat Boy), Phil Fish (FEZ) e Jonathan Blow (Braid). Jonathan compartilha suas experiências com o lançamento de Braid, que apesar de ter sido um sucesso de vendas teve uma recepção bem diferente do que o seu criador esperava, o que levou a atritos ente Blow, seus fãs e a mídia especializada. Enquanto isso, Edmund e Tommy correm contra o tempo e trabalham horas a fio para terminar Super Meat Boy dentro do prazo estipulado pela publisher (a Microsoft). Phil tem atritos com um antigo sócio e sofre com o desenvolvimento de seu jogo, que já se arrastava por quase 4 anos. Mas o final dessa história é feliz para todos: Super Meat Boy é lançado e torna-se um grande sucesso, Blow segue em frente com um novo projeto e Phil resolve a disputa com seu sócio e continua o desenvolvimento de FEZ com ânimo renovado.

Os desenvolvedores apresentados em Indie Game: The Movie trabalharam duro e realizaram seus sonhos, e mesmo os que não obtiveram tanto sucesso conseguiram o mínimo de reconhecimento e retorno para seguirem em frente. Mas é importante lembrar que isso não acontece com milhares de indie devs, e é esse tipo de história que vemos em We Are Alright. Apesar do jogo ter sido lançado logo de cara em 2 plataformas (PS4 e PC) e ter recebido atenção razoável de vários canais no YouTube, Twitch e sites especializados, isso não foi o suficiente para alavancar a popularidade do game, o que é uma prova de que ser visto e ser lembrado não necessariamente significa a mesma coisa. No fim das contas, a frustração bateu forte nos desenvolvedores, que venderam muito menos do que o esperado e, por consequência, ficaram no vermelho. Apesar dos pesares, eles ainda continuam trabalhando no Lichtspeer (que foi posteriormente lançado para Android e Nintendo Switch) e também conseguiram patrocínio para trabalhar com novos projetos.

Em conclusão: os dois documentários são sensacionais, e embora eu pessoalmente goste mais do apelo humorístico e emocional de Indie Game: The Movie, não posso deixar de notar que o enfoque realista e cotidiano de We Are Alright é interessante e extremamente necessário, principalmente para acabar com a ideia que muita gente tem de que o mundo dos indies é promessa de dinheiro fácil. A caminhada é longa e, para muitos, não leva ao lugar esperado. O título do filme, que pode ser traduzido como “Nós Estamos Bem”, resume o sentimento de quem fracassa, mas não deixa transparecer e segue em frente sem se abalar. Pois não é só de sucessos estratosféricos e histórias de superação que vive a humanidade. Muito pelo contrário, as história de fracasso são as mais comuns. Contudo, por mais clichê que isso pareça, precisamos aprender com nossos erros e seguir em frente.

Fontes:
https://store.steampowered.com/app/207080/Indie_Game_The_Movie/
https://store.steampowered.com/app/794310/We_are_alright/