O que aprendi com um programador do outro lado do continente

Photo by James Wheeler from Pexels

Durante minha curta passagem por Vancouver (Canadá) em 2018, tive a oportunidade de participar de um evento de conversação em língua inglesa que reuniu estrangeiros e locais. O evento ocorria semanalmente em uma cafeteria, e a entrada era gratuita, com a condição de que se comprasse ao menos um café para ajudar o dono do estabelecimento. Qualquer assunto era permitido, contanto que não ofendesse ou constrangesse ninguém, e todos os participantes eram livres para entrar e sair quando quisessem. A certa altura, apareceu um sujeito sorridente com um teclado ergonômico debaixo do braço e sentou-se na mesma mesa onde eu conversava com mais 2 ou 3 pessoas. Pelo apetrecho que carregava, todos logo deduziram sua ocupação: era um programador.

Vamos chamá-lo aqui de Jimmy (obviamente, esse é um nome fictício). Era um canadense da gema, nascido e criado nos arredores de Vancouver. Trabalhava em uma grande empresa de jogos da região (não vou falar o nome, mas com uma rápida pesquisa no Google dá pra ter uma ideia). Como trabalhávamos na mesma área, não foi difícil encontrar assunto. Falamos sobre as linguagens que usávamos e com os tipos de projetos com os quais já tínhamos trabalhado. Tudo corria sem maiores percalços até eu citar que a empresa na qual eu trabalhava na época desenvolvia ERPs.

Tudo corria sem maiores percalços até eu citar que a empresa na qual eu trabalhava na época desenvolvia ERPs. “O que é isso?”, Jimmy perguntou, me olhando com uma expressão de estranheza. Fiquei completamente perdido. Tentei explicar, e embora ele tenha concordado com um sorriso e um aceno, não sei se realmente consegui me fazer entender. Trabalhando diariamente com programação comercial, me parecia impossível que algum programador no mundo não soubesse o que era um ERP. Caso você também não saiba, aí vai a definição segundo o glossário do Gartner:

Enterprise Resource Planning (ERP) é definido como a habilidade de entregar um conjunto [suíte] integrado de aplicações empresariais.

Ou seja: é basicamente um pacote de aplicações que te ajudam a administrar um negócio, ou um sistema centralizado que ofereça várias funcionalidades desse tipo. Do caixa da loja até o proprietário, do chão de fábrica ao diretor da fábrica, todos podem realizar suas atividades através desse tipo de sistema. O caixa precisa atender o consumidor e gerar nota fiscal? Faz pelo ERP. O gerente quer ver um relatório de vendas? Emite pelo ERP. O RH decidiu demitir o gerente e o caixa? Demite pelo ERP.

Mas meu ponto aqui não é explicar o que é um ERP e sim apontar a conclusão que ficou martelando na minha cabeça após minha conversa com Jimmy: embora na visão de um leigo todos os programadores trabalhem com as mesmas coisas, a verdade é que cada um leva uma bagagem de conhecimento bem diferente. Querendo ou não, nossa jornada profissional e de estudo nos conduz a especialização em determinadas tecnologias e áreas de conhecimento. Aprendemos as linguagens e frameworks que nos ensinam, ou que são necessários para o trabalho. Nos acostumamos com práticas de engenharia, desenvolvimento e testes que são utilizadas nos meios onde estamos inseridos. Programadores, de maneira geral, parecem buscar bem mais conhecimento específico do que algo mais abrangente. Ou será o contrário?

Para responder essa pergunta mais uma vez recorri a Stack Overflow Developer Survey, a pesquisa anual realizada com programadores do mundo inteiro pelo site Stack Overflow. A pesquisa mais recente constatou que, entre os programadores entrevistados que atualmente trabalham na área, 25,4% possuem mestrado e 3,1% possuem doutorado. Ou seja, mais de 1/4 dos programadores decidiu investir tempo e dinheiro em uma especialização. Porém, 49,1% parou no bacharelado. Seria esse um indicativo de que a maioria dos desenvolvedores tem uma ênfase mais generalista? Não exatamente. Cursar o ensino superior ainda é algo custoso tanto em termos financeiros quanto de tempo. Sendo assim, é compreensível que a maioria das pessoas pare após o primeiro diploma.

Contudo, o jogo vira quando analisamos outros indicadores. Quanto ao local de trabalho, 11,9% dos entrevistados trabalham em empresas de desenvolvimento de software, e 10,9% em empresas de TI. Ou seja, boa parte dos programadores trabalha em empresas que provavelmente produzem software para atender uma gama variada de clientes, e não apenas domínios específicos. Por consequência, é bem provável que o conhecimento desses profissionais seja bem variado também. Uma fatia menor dos entrevistados disse trabalhar em áreas mais específicas como setor financeiro e bancário (8.9%), saúde e serviço social (4,4%), vendas ou e-commerce (3,8%), manufatura (2,8%) e telecomunicações (2,3%).

Quanto a pergunta “Quais são os fatores mais importantes na hora de escolher um novo emprego?”, apenas 15% responderam que se preocupariam com a indústria em que estariam trabalhando, e 12,8% se preocupariam com o departamento ou time específico no qual estariam inseridos no novo emprego. Portanto, ao que parece a maioria dos programadores não se importa em sair da zona de conforto e aprender seja lá o que for para ocupar uma nova posição.

Acredito que isso resume a conclusão que obtive após toda essa análise: os profissionais de tecnologia sejam bem mais flexíveis que os de outras áreas, e portanto bem mais propensos a abraçar novos desafios e buscar novos conhecimentos quando necessário. E quanto ao nosso amigo Jimmy, que nunca tinha ouvido falar de ERPs? Bom, acredito que a história dele ilustra um fato muito importante: ninguém é obrigado a saber tudo. Afinal de contas, embora o mercado de trabalho espere que programadores sejam verdadeiras “esponjas” de conhecimento, todos somos humanos e temos limites. Cabe a nós encontrar um equilíbrio entre a incessante busca pelo novo e o aperfeiçoamento das habilidades que já possuímos.

Fontes:

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